segunda-feira, 4 de julho de 2016

Da Torrente ao Mar


      A mente não deve ser distraída pelos pensamentos do passado ou do futuro; ela permanece no presente, tal como é, nela mesma, sem distração.

       O iogue indiano Tilopa dizia: “A mente atada pelas tensões se soltará sem nenhuma duvida se ela relaxar.” Desde os tempos sem começo estamos atados pelos pensamentos; disso resulta uma grande tensão. Na meditação, ela desfaz-se e ficamos à vontade. A consciência do presente da mente repousada sobre si mesma deve ser desprovida de toda contração.

      Quando meditamos dessa maneira, é possível que conheçamos inicialmente um curto período desprovido de pensamentos. Contudo, os pensamentos logo surgem. Como somos principiantes, talvez tenhamos a ideia de que não devessem existir pensamentos. É um grande erro; devemos simplesmente permanecer vigilantes e não distraídos.

     Gampopa, o principal discípulo de Milarepa, dizia: “Todos os meditadores apreciam o estado sem pensamentos; todavia, não podemos fechar a porta dos pensamentos, ficam muito fatigados pelo esforço realizado.”

    Os principiantes têm geralmente a mente habitada por numerosos pensamentos. Comparamos tradicionalmente esse estado a uma torrente que se precipita de um despenhadeiro. Podemos então dizer: “Tenho tantos pensamentos que é inútil que eu continue. Nunca conseguirei! É melhor que eu pare. Ah, sim! Se eu não tivesse pensamentos, poderia dizer que medito; porém, no meu caso, não serve para nada.”  

   Ao contrario, não se deve parar de meditar; é natural que os principiantes encontrem essa torrente de pensamentos.

   Quando perseveramos, ganhamos um certo hábito da meditação e, com a experiência, nossos pensamentos tornam-se como um rio que corre lentamente na planície.

    Enfim, nossa mente pode permanecer sem pensamentos e tornar-se como um mar sem ondas.

    Deve-se compreender bem que é uma progressão, que um estado não sucede a um outro senão após uma longa e regular prática da meditação.   
                        
    O principiante não deve crer que lhe é necessário, desde as primeiras sessões, instalar-se num estado de ausência de pensamentos. Isso lhe seria impossível.

    “Devo absolutamente não ter pensamentos durante a meditação; nenhum pensamento deve surgir em minha mente!” Tal abordagem não serve para nada. Devemos simplesmente manter uma atitude de mente na qual consideramos que se pensamentos chegam, é sem importância, se eles não se produzem, também é sem importância. O que importa é permanecer não-distraído.

Do livro “Meditação Concelhos aos Principiantes” - Bokar Rimpoche- Editora Shisil


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Os Três Aspectos de DUKKHA



   A noção de dukkha pode ser considerada sob três diferentes aspectos:

1.      Aspecto físico, como sofrimento comum: dukkha-dukkha.
2.    Aspecto psicológico, como sofrimento causado por alguma alteração, ou mudança da vida: viparinama-dukkha.
3.    Aspecto filosófico, como estado condicionado: sankhara-dukkha.

   Todas as modalidades de sofrimento se relacionam à constituição do ser e às diferentes fases da vida; desta forma o nascimento, a velhice, a doença, a morte, a união com o que não se ama, a separação daquilo que se ama, não obter seu desejo, perder glórias e prazeres, enfim toda forma de insatisfação física ou mental é sofrimento.

   Uma sensação agradável ou uma condição de vida feliz são impermanentes e não duram: uma doença, mais cedo ou mais tarde, surgirá, então haverá insatisfatoriedade ou sofrimento.

   As duas modalidades de sofrimento acima mencionadas são fáceis de compreender, não podem ser negadas, pois fazem parte da experiência da vida cotidiana.

   Dukkha, como estado condicionado, é o mais profundo, filosófico e importante aspecto da Primeira Nobre Verdade. Segundo a filosofia budista, o que chamamos de “ser”, “individuo”, ou “eu” é somente uma combinação de forças ou energias físicas e mentais, influenciadas pelo meio que nos rodeia, em perpétua transformação, que abrange os cinco agregados de existência como objetos de apego, quando tomados como “meu e eu” (skandhas).

   O Mestre define claramente  dukkha como sendo os cinco agregados do apego, que não são coisas distintas, mas sim uma coisa só; logo, os cinco agregados são eles mesmos dukkha. Compreendemos melhor quando tivermos uma ideia mais clara sobre o que são os Cinco Agregados, cujo conteúdo se chama “ser”, “individuo” ou “eu”.

Os Cinco Agregados da Existência (Skandhas)

   Os Cinco Agregados que compõem um ser ou individuo são os seguintes:

         1.      A matéria (corporalidade).
         2.    As sensações.
         3.    As percepções.
         4.    As formações mentais.
         5.     A consciência.

   Estes cinco agregados abrangem dois grupos (nama-rupa) que são: o agregado da matéria, o corpo físico (rupa), que é objetivo, e os agregados mentais (nama), que são subjetivos e se compõem das sensações, percepções, formações e consciência.




   Do livro “Budismo: Psicologia do Autoconhecimento”, Dr.Georges da Silva & Rita Homenko, Editora Pensamento.

  

segunda-feira, 9 de maio de 2016

EXISTÊNCIA DO SOFRIMENTO (DUKKHA)



    A primeira Nobre Verdade é comumente traduzida como a Nobre Verdade da Existência do Sofrimento, da Insatisfatoriedade, isto é, da desarmonia entre o eu pessoal e o mundo real não-condicionado e é interpretada habitualmente como se a vida fosse só dor ou sofrimento. Estas traduçõe são insuficientes e enganadoras. Admite-se que o termo dukkha possa ser empregado como enunciado da Primeira Nobre Verdade, significando Sofrimento, porém nele são implicadas noções mais profundas e filosóficas, entrelaçadas entre si, de impermanência, insatisfatoriedade, imperfeição, conflito, não-substancialidade ou impessoalidade (inexistência de uma individualidade eterna e imutável, a ilusão de um eu substancial).

   Por essa razão, torna-se difícil encontrar uma expressão, em qualquer língua ocidental, que abranja todo o conteúdo do termo dukkha.  Por conseguinte, é melhor abster-se de traduzir dukkha, do que arriscar-se a dar uma interpretação inadequada e falsa como a de sofrimento ou dor.

   Quando diz que existe o sofrimento, Gautama Buda não nega a felicidade existente na vida, pelo contrario, admite diversas formas de felicidade, tanto materiais como espirituais, tanto para leigos como para religiosos. No Anguttara-Nikaya, que é um dos textos originais em Pali, contendo os discursos de Buda, encontra-se diferentes formas de felicidade, tais como: a felicidade na vida familiar, na vida solitária, a felicidade dos prazeres dos sentidos, a felicidade da renuncia, do apego, do desapego, a felicidade física, a felicidade mental, etc.

   Tudo isto também está incluído em dukkha, visto que é impermanente, e ainda os mais puros estados espirituais de absorção mental (dyana), que são serenidade e atenção pura, onde o individuo se encontra liberto de toda sensação agradável ou desagradável, estado alcançado pelas mais altas práticas de meditação e descrito como felicidade sem igual. Mesmo estes mais altos estados espirituais estão incluídos em dukkha, porque são efêmeros.

      Em um dos discursos do Majjhima Nikaya, o Buda, depois de louvar a felicidade espiritual do estado de dhyana, diz que este estado é impermanente e está sujeito a mudança. Convém  notar que a palavra dukkha é aqui empregada de uma maneira explicita, não se enquadrando em seu senso comum, mas sugerindo que tudo que é impermanente, instável, efêmero, transitório, perecível é dukkha, portanto, capaz de trazer sofrimento.

   Gautama Buda era realista e objetivo no que diz respeito à vida e aos prazeres dos sentidos, afirmava que três coisas deveriam ser bem compreendidas: o desejo de prazeres dos sentidos (assada), as más consequências, o perigo e a insatisfação (adinava), a libertação (nissarana).

   Segue-se um pequeno exemplo: uma pessoa consegue uma privilegiada posição politica ou social que lhe dá prazer, orgulho e satisfação (assada). Mas esta satisfação não é permanente. Mudando esta situação, por qualquer circunstancia, sobrevirá o ressentimento, esta pessoa poderá comportar-se insensatamente, tornar-se desarrazoada, desequilibrada e agir imprudentemente. Este é o aspecto ruim, insatisfatório e perigoso (adinava).

   Porém, se ela observar as coisas como são, na sua real perspectiva, poderá se desapegar de sua posição e não sofrerá mais, isso é a libertação (nissarana).

   De acordo com os três itens acima, é evidente que esta interpretação não é de pessimismo, nem de otimismo. Deve-se levar em conta tanto os prazeres e felicidades, quanto as dores e dificuldades, do mesmo modo que a possibilidade de libertar-se deles, a fim de compreender a vida objetivamente. Somente quando as coisas são vistas com objetividade, a verdadeira libertação se tornará possível.



Do livro “Budismo: Psicologia do Autoconhecimento”, Dr.Georges da Silva & Rita Homenko, Editora Pensamento. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

UM POUCO MAIS SOBRE A IMPERMANÊNCIA


 Nada dura para sempre... 
  -PATRUL IRMPOCHE


    A maioria das pessoas é condicionada pelas sociedades às quais pertencem a aplicar rótulos à cadeia em constante mutação dos fenômenos mentais e materiais. Por exemplo, quando olhamos atentamente para uma mesa, ainda a rotulamos, de modo instintivo, como uma mesa – apesar de termos visto que ela não é coisa única, mas algo composto de várias partes diferentes: uma parte superior, as pernas, as laterais, uma parte de trás e uma parte da frente. Na verdade, nenhuma dessa partes poderia ser identificada como a própria “mesa”. Na verdade, “mesa” foi só um nome que aplicamos a um fenômeno que surge e se dissolve rapidamente e que meramente produz a ilusão de algo definitivo ou absolutamente real.

    Da mesma forma, a maioria de nós foi treinada para relacionar a palavra “eu” a uma cadeia de experiências que confirmam nosso senso pessoal de nós mesmos ou que se convencionou chamar de “ego”. Sentimos que somos essa entidade singular e única que continua imutável ao longo do tempo. Em geral, tendemos a sentir que somos hoje a mesma pessoa que éramos ontem. Lembramo-nos de ser adolescentes e de ir à escola e tendemos a sentir que o “eu” que somos agora é o mesmo “eu” que ia à escola, cresceu, saiu de casa, conseguiu um emprego e assim por diante.

    Mas, se olharmos em um espelho, podemos ver que este “eu” mudou ao longo do tempo. Talvez possamos ver rugas agora que não existiam uma ano atrás. Talvez agora estejamos usando óculos. Talvez tenhamos cabelos de cor diferente – ou, quem sabe, não nos tenha restado nem um fio de cabelo. Em um nível molecular básico, as células em nossos corpos estão sempre mudando, á medida que as células velhas morrem e novas células são geradas.

    Também podemos analisar esse senso de individualidade da mesma forma como olhamos para a mesa e ver que essa coisa que chamamos de “eu” na verdade é composta de varias partes diferentes. Ela tem pernas, braços, uma cabeça, mãos, pés e órgãos internos. Será que podemos identificar qualquer uma dessas partes separadas como definitivamente o ”eu”?

    Podemos dizer: ”Bem, minha mão não sou eu, mas é minha mão.” Mas a mão é composta de cinco dedos, a palma e as costas da mão. Cada uma dessas partes pode ser desmembrada em partes ainda menores, como unhas, pele, ossos e assim por diante. Cada um desses componentes pode ser definido como nossa “mão”? Podemos seguir essa linha de investigação até os níveis atômico e subatômico e ainda nos deparar com o mesmo problema de sermos incapazes de encontrar alguma coisa que possamos definitivamente identificar como “eu”.

    Assim, independentemente de estarmos analisando objetos materiais, o tempo, nosso “eu” ou nossa mente, mais cedo ou mais tarde, atingiremos um ponto no qual percebemos que a nossa análise não mais se sustenta. Nesse ponto, nossa busca por algo irredutível finalmente entra em colapso. Nesse momento, quando desistimos de procurar algo absoluto, experimentamos pela primeira vez a vacuidade, o infinito, a essência indeferível da realidade como ela é.

    À medida que contemplamos a enorme variedade de fatores que devem se unir para produzir um senso especifico de individualidade, nosso apego a esse “eu” que achamos que somos começa a se desfazer. Ficamos mais dispostos a abrir mão do desejo de controlar ou bloquear nossos pensamentos, emoções, sensações e assim por diante, e começamos a vivenciá-los sem dor ou culpa, absorvendo sua passagem como manifestações de um universo de possibilidades infinitas.

    Ao fazer isso, retomamos a perspectiva inocente que a maioria de nós conhecia quando criança. Nossos corações se abrem para os outros, como flores na primavera. Tornamo-nos ouvintes melhores, ficamos mais conscientes de tudo o que se passa a nosso redor e somos capazes de reagir com mais espontaneidade e adequação a situações que costumam nos preocupar ou nos confundir. Aos poucos, talvez em um nível tão sutil que podemos nem reparar que está acontecendo, vemo-nos despertando para um estado de espirito mais livre, límpido e afetuoso, com o qual jamais sonharíamos.

    Mas é necessário ter muita paciência para aprender a ver essas possibilidades.
    Na verdade, é necessário ter muita paciência para ver.


Do livro “A Alegria De Viver” Yongey Mingyur Rinpoche. Pags. 92 e 93. Editora ELSEVIER, CAMPUS.