segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Reflexão e Mudança




   "Quando eu era criança no Tibete, ouvi a história de Krisha Gotomi, uma jovem mulher que teve a sorte de viver na mesma época do Buda.  Quando seu primogênito tinha cerca de um ano, ficou doente e morreu. Acometida pelo pesar e agarrando o seu corpinho, Krisha Gotomi perambulou pelas ruas implorando a todos que encontrava um remédio para restituir seu filho à vida. Alguns a ignoravam, outros riam dela, outros ainda pensavam que ela era louca, mas finalmente encontrou um sábio que lhe disse que a única pessoa no mundo que podia realizar o milagre que ela buscava era o Buda.

   Assim ela foi até o Buda, deitou o corpo da criança a seus p[es, e contou-lhe a sua história. O Buda ouviu com infinita compaixão. Então ele disse suavemente: “Há apenas um modo de curara sua aflição. Vá para a cidade e me traga aqui uma semente de mostarda de uma casa onde nunca tenha ocorrido um falecimento.”

   Krisha Gotami sentiu-se exultante e partiu  imediatamente para a cidade. Parou na primeira casa que viu e disse: “O Buda me pediu para vir buscar uma semente de mostarda de uma casa que nunca conheceu a morte”.

   “Muita gente morreu nesta casa”, contaram-lhe. Ela passou para a casa seguinte. “Houve inúmeras mortes em nossa família”, disseram-lhe. E assim foram na terceira e quarta casas, até que ela percorreu a cidade toda e percebeu que o requisito do Buda não poderia ser cumprido.

   Tomou o corpo do seu filho, levou-o à sepultura e disse-lhe adeus pela última vez. Voltou então para o Buda. “Você trouxe o grão de mostarda?”, ele perguntou.

   “Não”, disse ela. “Começo a entender a lição que esta tentando me ensinar. O sofrimento me cegou e eu imaginei ser a única pessoa que sofria nas mãos da morte.”

   “Por que você voltou?”, perguntou o Buda.

   “Para lhe pedir que me ensine a verdade”, ela respondeu, “sobre o que é a morte, o que pode haver por trás e além dela, e o que há em mim, se é que há algo, que não morrerá.”

   O Buda começou a ensinar-lhe: “Se quer saber a verdade da vida e da morte, precisa refletir continuamente sobre isso: há somente um lei que nunca muda no universo – é a de que todas as coisas mudam, todas as coisas são impermanentes. A morte do seu filho ajudou você a ver que o reino em que estamos – samsara- é um oceano de insuportável sofrimento. Há um caminho, e apenas um caminho, para sair do ciclo incessante de nascimento e morte do samsara, que é o caminho da libertação. Uma vez que a dor agora a preparou para o aprendizado, e seu coração está se abrindo á verdade, vou mostrar-lhe esse caminho.”

   Krisha Gotami ajoelhou-se aos pés do Buda e o seguiu pelo resto de
 sua vida. Perto do fim, seguindo se conta, ela alcançou a iluminação."


Por Sogyal Rimpoche- Livro- O Livro Tibetano Do Viver E Do Morrer, pag. 50 e 51. Editora Talento/ Palas Athena





terça-feira, 30 de maio de 2017

O Caminho da Compreensão




Depois desta penetração, ele sobrepujou toda dor.”


   Penetrar significa entrar em alguma coisa, não apenas ficar do lado de fora. Quando queremos entender algo, não podemos simplesmente permanecer de fora e observar. Temos de entrar profundamente nele e ser um com ele para compreender realmente. Se quisermos entender uma pessoa, temos de sentir o que ela sente, sofrer o que ela sofre e nos alegrar com suas alegrias. Penetrar é uma palavra excelente. A palavra “compreender” é feita das raízes latinas com, que significa “junto na mente” e prehendere, que significa “captar ou apanhar” algo. Compreender algo significa apanha-lo e tornar-se um com ele. Não há outro caminho para se compreender alguma coisa.

   Se apenas olhamos para a folha de papel como um observador, ficando do lado de fora, não poderemos compreendê-la completamente. Temos de penetrá-la. Temos de ser uma nuvem, ser os raios de sol e ser o lenhador. Se pudermos penetrar e ser todas as coisas que estão nela, nossa compreensão da folha de papel será perfeita.

   Há uma história indiana sobre um grão de sal que queria saber exatamente quão salgado era o oceano, de maneira que saltou nele e tornou-se um com a água do oceano. Deste modo, o grão de sal alcançou a perfeita compreensão.

    Estamos preocupados com a paz e queremos compreender a Rússia, de modo que não podemos ficar de fora apenas e ficar observando. Temos de nos tornar um com o cidadão russo para podermos compreender suas sensações, percepções e formações mentais. Temos de ser um com ele (ou ela) a fim de realmente compreendermos. Isto é meditação budista – penetrar,  ser um com, para realmente compreender. Qualquer trabalho significativo em favor da paz deve seguir o principio da não-dualidade, p principio da visão interior.

   No sutra dos Quatro Fundamentos da Mente Atenta, o Budha recomendou que nós observássemos deste modo penetrante. Ele disse que deveríamos observar o corpo no corpo, as sensações nas sensações e as formações mentais nas formações mentais. Por que ele usou este tipo de repetição? Porque você precisa penetrar para se tornar um com aquilo que você quer observar e compreender. Cientistas nucleares estão começando a afirmar isto também. Quando você entra no mundo das partículas elementares, você precisa se tornar um participante a fim de compreender alguma coisa. Você não pode mais ficar de fora, permanecendo apenas como um observador extremo. Hoje muitos cientistas preferem a palavra participante ao invés de observador.

   Em nossos esforços por compreendermos uns aos outros, deveríamos fazer o mesmo. Esposo e esposa que desejem compreender-se mutuamente têm de estar na pele um do outro de modo a sentirem-se, pois, de outra forma, não poderão realmente se compreender. Sob a luz da meditação budista, o amor é impossível sem a compreensão. Você não pode amar uma pessoa se você não a compreende. Se você não compreende e diz amar, isto não é amor, é alguma outra coisa.

   A meditação de Avalokita foi uma profunda penetração no interior dos cinco skandhas, Vendo profundamente dentro dos rios da forma, das sensações, das percepções, das formações mentais e da consciência, ele descobriu a natureza vacuosa de todos eles e, de repente, ele sobrepojou toda dor.

   Todos nós almejamos alcançar este mesmo tipo de emancipação, teremos de olhar profundamente a fim de penetrar a verdadeira natureza da vacuidade.



Do livro “O Coração da Compreensão”, Thich Nhat Hanh, Editora Bodigaya. 




quinta-feira, 20 de abril de 2017

Proteção Mediante a Plena Atenção


Certa vez o Bem-Aventurado contou a seus monges a seguinte estória:

        Houve uma vez, um par de saltimbancos que fazia acrobacias numa vara de bambu. Um dia, disse o mestre-acrobata a seu aprendiz: - Apoie-se nos meus ombros e suba na vara de bambu.  – Assim que o aprendiz o fez, falou o mestre: - Agora proteja-me bem, que eu o protegerei. Protegendo-nos e vigiando-nos mutuamente, desta forma, seremos capazes de mostrar nossa habilidade, teremos bom proveito e desceremos com segurança da vara de bambu. – Mas, disse o aprendiz: - assim não, mestre. Vós, ó mestre, deveis proteger-vos, enquanto eu também protegerei a mim mesmo. Assim, cada um de nós protegendo e guardando a si mesmo, melhor desempenharemos nossas tarefas.
O Budha, que passava, ouvindo o colóquio disse:

       - Assim é que está certo. – acrescentando ainda:- é exatamente como diz o aprendiz: “Eu mesmo me protegerei” (da mesma forma devem as Bases ou Quatro Fundamentos da Plena Atenção Mental- Satipatthana- serem postas em prática). “Protegerei os outros” (dessa forma devem as bases da plenitude mental ser praticadas). “Protegendo-nos a nós mesmos, protegeremos os outros; protegendo os outros, protegeremos a nós mesmos.”

     - E como fazer para proteger a si mesmo e proteger os outros? Pela repetida e frequente prática de meditação.

    - E como fazer para proteger os outros e proteger a si mesmo? Pela paciência e pela indulgência, por uma vida pura e de não-violência, pela bondade e compaixão. (Satipatthana Samyutta n.o 19.)

   Este Sutra pertence ao número considerável de ensinamentos importantes e eminentemente práticos de Budha, que se acham ocultos como um tesouro enterrado, desconhecido e sem uso. Assim, este texto contém uma importante mensagem para nós, e o fato de ele ainda estar lacrado com o selo da Plena Atenção (Vigilância) é um apelo adicional à nossa atenção.


   Do livro Budismo: Psicologia do Autoconhecimento- Dr. Georges da Silva & Rita Homenko. Editora Pensamento- pag.110 e 111.






quarta-feira, 8 de março de 2017

As 6 Forças Do Caminho Do Shine



                                 Cada força prepara e serve de suporte para a seguinte.

                O estudo permite compreender que é necessário se lembrar.
                Com a prática a qualidade da atenção aumenta;
                Isso evita  o esgotamento nas distrações e produz a energia.
                Com o treinamento vem o hábito e a facilidade.

*  *  *

1) « A força da escuta »  ,R?- 0:A-!R2?-
É uma capacidade adquirida graças ao estudo, a aprendizagem dos ensinamentos e instruções. Antes de poder aplicá-las de maneira eficaz, é preciso saber porque elas são necessárias e em que elas consistem.

2) « A força da reflexão »  2?3- 0:A-!R2?-  . Aprender de cor não é suficiente, é preciso compreender, integrar, apropriar-se do sentido do ensinamento pelo exame e reflexão.


3) « A força da lembrança »  Ou da «  atenção-lembrança ».  S/- 0:A- !R2?-
Uma vez que se esteja engajado na prática, é preciso não se esquecer das instruções que foram aprendidas.
A atenção permite perceber o que ocorre; graças ao discernimento pode-se fazer uma avaliação pertinente e depois referindo-se às instruções guardadas na memória, pode-se aplicar o remédio apropriado e fazendo assim progredir com a meditação.

4) « A força da vigilância »  >J?- 28A/- IA- !R2?-
Com a purificação do torpor e da agitação grosseira a qualidade da atenção aumenta e torna-se vigilância. Trata-se de uma atenção de grande acuidade que ativa instantaneamente o processo que antes era mais longo e laborioso.

5) « A força da energia. »  2lR/- :P?- GA- !R2?-
Gampopa define energia como « Regozijar-se da prática da virtude ». Portanto, trata-se sobretudo de uma vitalidade enérgica e entusiasmo e não de um esforço laborioso e penoso.

6) « A força do perfeito hábito » ;R%?- ?- :SA?- 0:A- !R2?-  
 Uma vez que muito se exercitou, menos atenção, reflexão ou esforços são necessários.
O que no início era difícil, com o treinamento, torna-se fácil e natural. Um bom hábito que torna-se, ele mesmo, uma força.


Esse texto faz parte do resumo feito pelo venerável Bokar Rinpoche,  A Abertura da Porta do Sentido Definitivo, Nge Dön Godje, sendo traduzido no KPG, em Brasilia, pelo Lama Trinle. 





terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sobre o Karma


  

 São nossas ações do passado que nos fizeram ser o que somos hoje; são nossas ações do presente que farão o que seremos amanhã. Por isso prestar atenção nas nossas ações no aqui agora é essencial para evitar sofrimentos no futuro.

   Não adianta ficar pensando no que já passou, o passado não tem mais como arrumar. Faça uma reflexão das suas ações e consequências e preste atenção no presente para não cometer os mesmos erros do passado.

   Também não adianta ficar pensando no futuro, ele é apenas uma ilusão. Se você quer conquistar algo no futuro, procure usar o presente de forma correta e significativa. Crie causas e condições para que as coisas aconteçam...

   Os ensinamentos falam que o Karma é a atividade. “É a lei de encadeamento das causas e as consequência dos atos.” Prestar atenção nas ações evita o sofrimento do arrependimento.

   Consiste em dez atos não virtuosos ou nocivos que provem as seis emoções perturbadoras da mente: o Desejo, a aversão, a estupidez, a avareza, o ciúme, o orgulho (que pode ser efetivados por três portas: O corpo, a palavra e a mente).

Os atos negativos do corpo:

- Matar
- Apropriar-se pelo que não foi lhe dado, roubar
- A má conduta sexual

Os atos negativos pela palavra:

- Mentir
- Criar discórdia por maledicência
- Empregar palavras ofensivas
- Usar palavras fúteis

Os atos negativos da mente:

- O desejo, a cobiça
- O desejo de prejudicar

-Ter visões errôneas a respeito do Dharma







quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Mantra Da Compaixão


    O mantra da compaixão, OM MANI PADME HUM, é pronunciado pelos tibetanos OM MANI PEME HUNG. Ele encarna a compaixão e a benção de todos os Budhas e Bodhisatvas, e invoca especialmente a benção de Avalokiteshvara, o Budha da Compaixão. Avalokiteshvara é uma manifestação do Budha no Sambhogakaya, e seu mantra é considerado a essência da compaixão do Budha por todos os seres. Assim como Padmasambhava é o mestre mais importante do povo tibetano, Avalokitesshvara é o seu Budha mais importante e a deidade cármica do Tibete. Há um dito famoso que dia que o Budha da Compaixão está tão irraigado na consciência tibetana que qualquer criançaque saiba dizer “mãe” sabe também recitar o mantra OM MANI PEME HUNG.

   Conta-se que, há inumeráveis eras, mil príncipes juraram tornar-se Budhas. Um deles quis tornar-se o Budha que conhecemos Sidarta Gautama. Avalokiteshvara, no entanto, prometeu não obter a iluminação até que todos os outros mil príncipes a tivesse conseguido. Na sua infinita compaixão, ele também fez o voto de liberar todos os seres sencientes do sofrimento dos vários reinos do Samsara. Diante dos Budhas das dez direções, ele rezou: “Possa eu ajudar todos os seres, e se alguma vez cansar nesse trabalho imenso, possa o meu corpo ser despedaçado em mil partes”.  

   Conta-se que primeiro ele desceu aos infernos, subindo gradualmente através do mundo dos fantasmas famintos até o reino dos deuses. De lá olhou para baixo e viu horrorizado que, embora tivesse salvo inúmeros seres do inferno, incontáveis outros estavam caindo lá. Isso o deixou na mais profunda dor.  Por um instante ele quase perdeu a fé no seu nobre voto, e seu corpo explodiu em mil pedaços. Em desespero, pediu ajuda a todos os Budhas, que vieram em sua direção de todos os recantos do universo como uma suave tempestade de neve com seus flocos brancos, segundo diz um texto.

    Com seu grande poder, os Budhas deixaram-no inteiro de novo, e a partir de então avalokiteshvara tem onze cabeças e mil braços, e em cada palma das mil mãos tem um olho, significando a união da sabedoria e dos meios hábeis- marca da verdadeira compaixão. Nessa forma ele ficou ainda mais resplandecente e poderoso do que antes para ajudar todos os seres, e sua compaixão aumentou de intensidade com a continua repetição de seu voto diante dos Budhas: “Possa eu não obter o estado búdico supremo antes que todos os seres sencientes alcancem a iluminação”.

   Conta-se ainda que, em sua tristeza pela dor do Samsara, duas lágrimas caíram do seu rosto: pela bênção dos Budhas elas se transformaram nas duas Taras. Uma é a Tara em sua forma verde, que á força ativa da compaixão, e a outra é Tara em sua forma branca, que é o aspecto materno da compaixão. O nome Tara significa “aquela que liberta”: a que nos transporta através do oceano do Samsara.

   Está escrito nos sutras do Mahayana que Avalokiteshvara deu seu mantra ao próprio Budha, que em troca lhe deu a nobre e especial tarefa de ajudar todos os seres do universo no caminho para o estado búdico. Nesse mometo, todos os deuses fizeram chover flores sobre eles, a terra estremeceu e no ar ressoou o som de OM MANI PEME HUM HRIH.

   Nas palavras do poema:

 Avalokiteshvara é como a lua                                                                                               Cuja luz refrescante apaga os fogos ardentes do Samsara.      
Em seus raios o lótus noturno da compaixão                
Abre todas as pétalas.
 

   Os ensinamentos explicam que cada uma das seis sílabas do mantra- OM MANI PEME HUNG- tem um efeito poderoso e especifico para produzir transformações em níveis diferentes do nosso ser. As seis sílabas purificam por completo as seis emoções negativas, que são a manifestação da ignorância e que nos fazem agir negativamente com o nosso corpo, fala e mente, criando desse modo o Samsara e nosso sofrimento nele. Orgulho, ciúme, desejo, ignorância, ganancia e ódio são transformados pelo mantra na verdadeira natureza de cada um deles: as sabedorias das seis famílias búdicas que se tornam manifestas na mente iluminada.

   Assim, quando recitamos OM MANI PEME HUNG, as seis emoções negativas que são a causa dos seis reinos do Samsara, são purificadas. Desse modo, recitar as seis sílabas previne o renascimento em cada um desses seis reinos, e também dissolve o sofrimento inerente de cada reino. Ao mesmo tempo, a recitação OM MANI PEME HUNG purifica os agregados do ego- os skandhas- e aperfeiçoa os seis tipos de ação transcendental do centro da mente iluminada, as paramitas: generosidade, conduta harmoniosa, perseverança, entusiasmo, concentração e visão interior. Também se diz que OM MANI PEME HUNG assegura forte proteção contra todo tipo de influencia negativa e várias formas diferentes de doença.

   Com frequência, HRIH, a “sílaba-semente” de Avalokiteshvara, é acrescida ao mantra para fazer OM MANI PEME HUNG HRIH. Essencia da compaixão de todos os Budhas, HRIH é o catalisador que ativa a compaixão dos Budhas para transformar  nossas emoções negativas na sua natureza de sabedoria.

   Kalu Rimpoche escreve:

   Outro modo de interpretar o mantra considera que a sílaba Om é a essência da forma iluminada. MANI PEME, as quatro silabas do meio, representam a fala da iluminação. A última sílaba, HUNG, representa a mente da iluminação. O corpo, a fala e a mente de todos os Budhas e Bodhisatvas são parte intrínseca do som desse mantra. Ele purifica os obscurecimentos do corpo, da fala e da  mente, e traz todos os seres ao estado de realização. Quando se junta à nossa própria fé e aos nossos esforços na meditação e recitação, o poder transformador do mantra aparece e aumenta. É verdadeiramente possível purificarmos desse modo.

   Para aqueles que estão familiarizados com o mantra e o recitaram com fervor e fé toda sua vida, o Livro Tibetano dos Mortos ora no bardo: “Quando o som do Dharma ruge como mil trovões, possa todo ele se tornar o som das seis silabas”. Da mesma forma lemos no Surangama Sutra:

   Como é doce e misterioso o som transcendental de Avalokiteshvara! É o som primordial do universo... É o murmúrio suave da maré vazante. Seu som misterioso traz a libertação e a paz a todos os seres sencientes que em sua dor estão pedindo ajuda, e traz a sensação de serena estabilidade aos que estão buscando a paz ilimitada do Nirvana.
                                           







Do Livro “ O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”, Sogyal Rimpoche. Pags. 482, 483, 484 e 485.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Compaixão e Sabedoria



O Sutra do Coração é considerado um dos ensinamentos mais profundos do budismo Mahayna e também do budismo Vajrayana. A tradição Vajrayana – na qual se insere a Linhagem Drukpa tem suas origens no Mahayana, e é importante observar que seus ensinamentos não existem de modo independente das práticas Mahayanas de bodhichita, a mente altruística de iluminação, e da Prajna Paramita, a Perfeição da Sabedoria. Bodhicitta se refere so elemento de compaixão, e Prajna Paramita ao elemento de sabedoria das tradições Mahayana e Vajrayana.

   Deixando de lado os métodos hábeis do Vajrayana, não existe o caminho Vajrayana na ausência da fundação do Mahayana. Assim, o Sutra do Coração que encapsula os ensinamentos da Prajna Paramita, e muito respeitado nas praticas do Vajrayana. O sutra do Coração representa a visão da sabedoria última. As praticas baseadas nessa visão representam a compaixão – o método- dentro do Vajrayana.

   Compaixão e Sabedoria são os dois ensinamentos essenciais do Mahayana e do Vajrayana, e são colocadas em pratica por meio de métodos hábeis. Sem compaixão e sabedoria, não existe Mahayana e nem Vajrayana. Por isso, compaixão e sabedoria são consideradas as duas asas do Mahayana e do Vajrayana. E você não pode ter uma asa sem ter a outra.
   Se praticar apenas a compaixão, você poderá ficar muito feliz e calmo dentro do Samsara, mas jamais atingirá a libertação, porque não possui a sabedoria para perceber o Samsara como ele realmente é. Por outro lado, se possuir apenas a sabedoria, você poderá se liberar, mas isso só servirá para você mesmo e não para o beneficio dos outros seres.

   Colocando em termos bem claros: se você não tiver compaixão, não terpa interesse em ajudar ninguém. Estará interessado apenas em si mesmo. Por outro lado, se não tiver sabedoria, não saberá como ajudar os outros mesmo que tenha a intenção. Isso porque você está sofrendo e não possui sabedoria para oferecer o tipo de ajuda de que os outros necessitam. A ajuda que você pode oferecer talvez seja alimento de dinheiro, mas indo além disso, se alguém estiver mentalmente infeliz, você não poderá ajudar. Isso porque você não sabe como lidar consigo mesmo e com as suas emoções. Você não consegue entender a verdadeira natureza dos fenômenos e a verdadeira natureza de sua mente.

   Embora andem lado a lado, compaixão e sabedoria às vezes são praticas separadamente no Mahayana. Por exemplo, quando você realiza a recitação ou a pratica de generosidade no Mahayana, não é necessário que visualize como um Budha, tampouco que tenha entendimento da vaziez. Assim, quando está praticando a generosidade e oferecendo aos outros, você ainda pode ter pensamento de “eu” de “estou dando algo outro ser senciente que está sofrendo”. Você está doando, mas sem a compaixão ou o entendimento perfeitos. E quando pratica a meditação unidirecional que investiga a vaziez, você pode analisar a natureza operacional da mente, mas pode deixar de gerar a compaixão de forma adequada enquanto medita. Logo, a compaixão e a sabedoria são praticadas separadamente.

   Algumas práticas do Vajrayana também funcionam assim. Mas na maioria das praticas do Vajrayana, a compaixão, através dos meios hábeis, e a sabedoria, através do entendimento de shunyata (vaziez), são praticadas em conjunto. Shunyata se refere ao entendimento de que isso nada no universo existe de modo independente, Mas por exemplo, ao mesmo tempo em que está visualizando a forma do Budha em uma prática (isto é, utilizando meios hábeis), você também deve ter o entendimento do shuyata. A visualização deve ser entendida como reflexo no espelho- algo que existe muito claramente e que ao mesmo tempo não existe. Esse é o entendimento adequado de shuyata, praticando junto ao método hábil da compaixão. No Varayana, essa é a forma adequada de pratica-lo.



Do livro “A Lua no Espelho, Uma visão incomum da Prajna Paramita.” De S.Ema. Gyalwa Dokhampa. Editora Lúcida Letra. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O Apego ao Mundo



       Para vencer o apego ao mundo, tanto ao nosso corpo quanto aos bens materiais, é preciso antes de tudo desfazer-se da crença de que eles têm uma existência real e definitiva. É necessário, portanto, tomar consciência de que, longe de ser dotados de uma permanência que fundaria sua realidade, todos os fenômenos mudam a cada instante. Eles são transitórios por natureza.

       Consideramos inicialmente o nosso corpo. Desde o instante de nossa concepção até o momento presente, a cada instante, ele não sessou de se modificar-se. De um segundo a outro, ele nunca foi exatamente igual a ele mesmo. O embrião no principio, desenvolveu-se no ventre da mãe. Depois, apor o nascimento, nosso corpo mudou progressivamente de bebe a criança, de criança a adolescente, de adolescente a adulto, seguindo uma modificação constante. A potencia do corpo afirmou-se até a idade adulta, estabilizou-se, em seguida declinou, conduzindo à velhice.    E quando a vitalidade se esgotar por completo, o corpo morrerá.

    Esse processo de envelhecimento, que o nascimento e a morte delimitam, não acontece por mudanças sutis, por blocos de anos, de meses ou de dias que se sucederiam. É um fenômeno regido por uma modificação continua em que o instante seguinte traz uma alteração em relação ao instante precedente.

    Os objetos do mundo exterior estão submetidos às mesmas regras. Vejamos uma casa. Visto que não percebemos a impermanência muito sutil, temos a impressão de que ela é a mesma de há alguns anos, a mesma do mês passado, a mesma de ontem. Se, todavia, procedemos a uma analise mais profunda, constatamos que as moléculas microscopias que a compõem não cessaram de se modificar desde ontem, e que a casa, na realidade, cessou de exibir na mesma forma. Agora mesmo, instante após instante, essa modificação prossegue. Desde o dia da sua construção, a casa não cessou de envelhecer e virá um dia em que ela será totalmente inutilizável, cairá em ruinas ou será destruída. É a sucessão de alterações que se situam ao nível do instante que a conduzem assim rumo a seu fim.

    Todos os fenômenos do mundo exterior estão submetidos ao mesmo processo. Tomar consciência de sua impermanência assim como a de nosso corpo diminuirá o apego que temos por essa vida.

    Estamos, por sinal, convictos de que os fenômenos são dotados das capacidades de proporcionar-nos uma felicidade autêntica, seja as formas belas, os sons harmoniosos, os bons odores ou os sabores agradáveis. Essa convicção é uma das raízes de nosso apego e ela não é fundamentada. Se examinarmos atentamente as felicidades que nos são assim dadas, vemos que não são verdadeiras felicidades. Elas são mutáveis por natureza. Mesmo que elas apareçam inicialmente como felicidade, elas estão ameaçadas de se transformar em sofrimento um dia ou outro.

   Outrora, por exemplo, no Ocidente, na aurora do desenvolvimento das ciências e das técnicas modernas, as populações camponesas não gozavam de nenhum conforto em seu habitat. Levando em conta que o progresso material chegou primeiro às cidades, muitos preferiram nelas instalar-se e fugir da precariedade de sua condição de vida. A eletricidade, a agua encanada, um mobiliário de qualidade, etc., eram vistos como atributos proporcionando necessariamente a felicidade, de modo que as pessoas apreciaram habitar na cidade. Depois, com o hábito, a sensação de felicidade proporcionada pelo conforto arrefeceu progressivamente, a ponto de o que parecia muito agradável no inicio acabar por parecer, às vezes, fatigante. Assim, nos dias de hoje, um certo numero de citadinos prefeririam deixar a cidade e reencontrar condições de vida muito mais rústicas, sem sofisticações, sem carpete, quase sem conforto. Ou ainda, vemos pessoas que, não mais apreciando os encantos de um mobiliário moderno e racional, buscam mesas e cômodas antigas, feitas à mão, às vezes oscilantes, mal ajustadas. A felicidade de um momento, por causa da impermanência, torna-se facilmente a contrariedade de outro momento e não podemos dizer de uma dessas felicidades que ela é de fato felicidade, pois nunca é definitiva.

    Por essa razão, todos os prazeres e todas as felicidades deste mundo foram comparados pelo Buddha ao mel que uma pessoa lambe sobre uma lâmina afiada: inicialmente aprecia a doçura do mel, depois, rapidamente, ela se corta e sente dor. Sem sequer nos referirmos à palavra do Buddha, basta observarmos nossa própria experiência: a felicidade que se transforma em sofrimento, nós todos a conhecemos. Se compreendemos bem esse fato, nosso apego a esse mundo diminuirá.

    Enfim, conquanto associemos uma realidade em si aos fenômenos do mundo exterior, eles são, de fato, dela desprovidos e são apenas manifestações projetadas por nossa própria mente. Podemos compreender que os fenômenos, ainda que privados de existência própria manifestam-se, reportando-nos ao sonho: os objetos exteriores, as paisagens, as casas, os homens, tudo surge nele. Além disso, em relação com que se produz assim, experimentamos sensações agradáveis ou desagradáveis. Tudo parece verdadeiro, quando, de fato, trata-se do jogo da nossa própria mente. O mesmo ocorre com as aparências deste mundo atual. Mesmo se é difícil ter a experiência disso, podemos ao menos compreender como certas qualidades que atribuímos ao mundo exterior não são, de fato, senão colorações impostas por nossa própria mente.  

    Quando, por exemplo, estamos sob o império de um grande sofrimento ou de um grande descontentamento, é provável que percebamos como mal dispostos em relação a nós, ou como agressivos, todos aqueles que encontramos. Suponhamos ainda que estejamos muito felizes ou coléricos. Mesmo que nos sirvam uma boa refeição num local agradável, ela não nos parecerá boa. Se, ao contrario, por uma razão ou por outra, estamos muito felizes, mesmo uma refeição medíocre servida num local insignificante parecer-nos-á deliciosa. Não é a refeição que impõe sua qualidade, á nossa mente que o faz. Compreendemos, então, a menos parcialmente, como os fenômenos exteriores podem depender de nossa mente.

    Compreender que tudo é impermanente, que a felicidade transforma-se em sofrimento e que todos os fenômenos são desprovidos de realidade em si e são apenas projeções de nossa mente permitirá neutralizar o primeiro impedimento à meditação, ou seja, nosso apego a este mundo.
   


Do livro “Meditação Concelhos aos Principiantes” - Bokar Rimpoche- Editora Shisil

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Da Torrente ao Mar


      A mente não deve ser distraída pelos pensamentos do passado ou do futuro; ela permanece no presente, tal como é, nela mesma, sem distração.

       O iogue indiano Tilopa dizia: “A mente atada pelas tensões se soltará sem nenhuma duvida se ela relaxar.” Desde os tempos sem começo estamos atados pelos pensamentos; disso resulta uma grande tensão. Na meditação, ela desfaz-se e ficamos à vontade. A consciência do presente da mente repousada sobre si mesma deve ser desprovida de toda contração.

      Quando meditamos dessa maneira, é possível que conheçamos inicialmente um curto período desprovido de pensamentos. Contudo, os pensamentos logo surgem. Como somos principiantes, talvez tenhamos a ideia de que não devessem existir pensamentos. É um grande erro; devemos simplesmente permanecer vigilantes e não distraídos.

     Gampopa, o principal discípulo de Milarepa, dizia: “Todos os meditadores apreciam o estado sem pensamentos; todavia, não podemos fechar a porta dos pensamentos, ficam muito fatigados pelo esforço realizado.”

    Os principiantes têm geralmente a mente habitada por numerosos pensamentos. Comparamos tradicionalmente esse estado a uma torrente que se precipita de um despenhadeiro. Podemos então dizer: “Tenho tantos pensamentos que é inútil que eu continue. Nunca conseguirei! É melhor que eu pare. Ah, sim! Se eu não tivesse pensamentos, poderia dizer que medito; porém, no meu caso, não serve para nada.”  

   Ao contrario, não se deve parar de meditar; é natural que os principiantes encontrem essa torrente de pensamentos.

   Quando perseveramos, ganhamos um certo hábito da meditação e, com a experiência, nossos pensamentos tornam-se como um rio que corre lentamente na planície.

    Enfim, nossa mente pode permanecer sem pensamentos e tornar-se como um mar sem ondas.

    Deve-se compreender bem que é uma progressão, que um estado não sucede a um outro senão após uma longa e regular prática da meditação.   
                        
    O principiante não deve crer que lhe é necessário, desde as primeiras sessões, instalar-se num estado de ausência de pensamentos. Isso lhe seria impossível.

    “Devo absolutamente não ter pensamentos durante a meditação; nenhum pensamento deve surgir em minha mente!” Tal abordagem não serve para nada. Devemos simplesmente manter uma atitude de mente na qual consideramos que se pensamentos chegam, é sem importância, se eles não se produzem, também é sem importância. O que importa é permanecer não-distraído.

Do livro “Meditação Concelhos aos Principiantes” - Bokar Rimpoche- Editora Shisil


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Os Três Aspectos de DUKKHA



   A noção de dukkha pode ser considerada sob três diferentes aspectos:

1.      Aspecto físico, como sofrimento comum: dukkha-dukkha.
2.    Aspecto psicológico, como sofrimento causado por alguma alteração, ou mudança da vida: viparinama-dukkha.
3.    Aspecto filosófico, como estado condicionado: sankhara-dukkha.

   Todas as modalidades de sofrimento se relacionam à constituição do ser e às diferentes fases da vida; desta forma o nascimento, a velhice, a doença, a morte, a união com o que não se ama, a separação daquilo que se ama, não obter seu desejo, perder glórias e prazeres, enfim toda forma de insatisfação física ou mental é sofrimento.

   Uma sensação agradável ou uma condição de vida feliz são impermanentes e não duram: uma doença, mais cedo ou mais tarde, surgirá, então haverá insatisfatoriedade ou sofrimento.

   As duas modalidades de sofrimento acima mencionadas são fáceis de compreender, não podem ser negadas, pois fazem parte da experiência da vida cotidiana.

   Dukkha, como estado condicionado, é o mais profundo, filosófico e importante aspecto da Primeira Nobre Verdade. Segundo a filosofia budista, o que chamamos de “ser”, “individuo”, ou “eu” é somente uma combinação de forças ou energias físicas e mentais, influenciadas pelo meio que nos rodeia, em perpétua transformação, que abrange os cinco agregados de existência como objetos de apego, quando tomados como “meu e eu” (skandhas).

   O Mestre define claramente  dukkha como sendo os cinco agregados do apego, que não são coisas distintas, mas sim uma coisa só; logo, os cinco agregados são eles mesmos dukkha. Compreendemos melhor quando tivermos uma ideia mais clara sobre o que são os Cinco Agregados, cujo conteúdo se chama “ser”, “individuo” ou “eu”.

Os Cinco Agregados da Existência (Skandhas)

   Os Cinco Agregados que compõem um ser ou individuo são os seguintes:

         1.      A matéria (corporalidade).
         2.    As sensações.
         3.    As percepções.
         4.    As formações mentais.
         5.     A consciência.

   Estes cinco agregados abrangem dois grupos (nama-rupa) que são: o agregado da matéria, o corpo físico (rupa), que é objetivo, e os agregados mentais (nama), que são subjetivos e se compõem das sensações, percepções, formações e consciência.




   Do livro “Budismo: Psicologia do Autoconhecimento”, Dr.Georges da Silva & Rita Homenko, Editora Pensamento.

  

segunda-feira, 9 de maio de 2016

EXISTÊNCIA DO SOFRIMENTO (DUKKHA)



    A primeira Nobre Verdade é comumente traduzida como a Nobre Verdade da Existência do Sofrimento, da Insatisfatoriedade, isto é, da desarmonia entre o eu pessoal e o mundo real não-condicionado e é interpretada habitualmente como se a vida fosse só dor ou sofrimento. Estas traduçõe são insuficientes e enganadoras. Admite-se que o termo dukkha possa ser empregado como enunciado da Primeira Nobre Verdade, significando Sofrimento, porém nele são implicadas noções mais profundas e filosóficas, entrelaçadas entre si, de impermanência, insatisfatoriedade, imperfeição, conflito, não-substancialidade ou impessoalidade (inexistência de uma individualidade eterna e imutável, a ilusão de um eu substancial).

   Por essa razão, torna-se difícil encontrar uma expressão, em qualquer língua ocidental, que abranja todo o conteúdo do termo dukkha.  Por conseguinte, é melhor abster-se de traduzir dukkha, do que arriscar-se a dar uma interpretação inadequada e falsa como a de sofrimento ou dor.

   Quando diz que existe o sofrimento, Gautama Buda não nega a felicidade existente na vida, pelo contrario, admite diversas formas de felicidade, tanto materiais como espirituais, tanto para leigos como para religiosos. No Anguttara-Nikaya, que é um dos textos originais em Pali, contendo os discursos de Buda, encontra-se diferentes formas de felicidade, tais como: a felicidade na vida familiar, na vida solitária, a felicidade dos prazeres dos sentidos, a felicidade da renuncia, do apego, do desapego, a felicidade física, a felicidade mental, etc.

   Tudo isto também está incluído em dukkha, visto que é impermanente, e ainda os mais puros estados espirituais de absorção mental (dyana), que são serenidade e atenção pura, onde o individuo se encontra liberto de toda sensação agradável ou desagradável, estado alcançado pelas mais altas práticas de meditação e descrito como felicidade sem igual. Mesmo estes mais altos estados espirituais estão incluídos em dukkha, porque são efêmeros.

      Em um dos discursos do Majjhima Nikaya, o Buda, depois de louvar a felicidade espiritual do estado de dhyana, diz que este estado é impermanente e está sujeito a mudança. Convém  notar que a palavra dukkha é aqui empregada de uma maneira explicita, não se enquadrando em seu senso comum, mas sugerindo que tudo que é impermanente, instável, efêmero, transitório, perecível é dukkha, portanto, capaz de trazer sofrimento.

   Gautama Buda era realista e objetivo no que diz respeito à vida e aos prazeres dos sentidos, afirmava que três coisas deveriam ser bem compreendidas: o desejo de prazeres dos sentidos (assada), as más consequências, o perigo e a insatisfação (adinava), a libertação (nissarana).

   Segue-se um pequeno exemplo: uma pessoa consegue uma privilegiada posição politica ou social que lhe dá prazer, orgulho e satisfação (assada). Mas esta satisfação não é permanente. Mudando esta situação, por qualquer circunstancia, sobrevirá o ressentimento, esta pessoa poderá comportar-se insensatamente, tornar-se desarrazoada, desequilibrada e agir imprudentemente. Este é o aspecto ruim, insatisfatório e perigoso (adinava).

   Porém, se ela observar as coisas como são, na sua real perspectiva, poderá se desapegar de sua posição e não sofrerá mais, isso é a libertação (nissarana).

   De acordo com os três itens acima, é evidente que esta interpretação não é de pessimismo, nem de otimismo. Deve-se levar em conta tanto os prazeres e felicidades, quanto as dores e dificuldades, do mesmo modo que a possibilidade de libertar-se deles, a fim de compreender a vida objetivamente. Somente quando as coisas são vistas com objetividade, a verdadeira libertação se tornará possível.



Do livro “Budismo: Psicologia do Autoconhecimento”, Dr.Georges da Silva & Rita Homenko, Editora Pensamento.