sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sobre A Morte



    O encontro com a morte pode produzir um verdadeiro despertar, uma transformação em toda nossa relação com a vida.

   Durante a época do Buddha, havia uma mulher, Krisha Gotami, que perdeu seu primeiro filho. Totalmente entorpecida pela tristeza ela saiu aos prantos pelas ruas, abraçada a seu filho falecido, implorando para todos que encontrasse um remédio para ressuscita-lo.

  Depois de muito andar pela cidade, sem encontrar alguém que a ajudasse, um sábio lhe disse que a única pessoa no mundo que poderia socorrê-la era o Buddha.

   Assim ela foi até o Buddha, deitou o corpo da criança a seus pés, e contou-lhe sua história. O Buddha ouviu com infinita compaixão, então disse: "Há apenas um modo de curar sua aflição. Vá para a cidade e me traga sete sementes de mostarda. Mas estas sementes devem vir de uma casa onde nunca tenha ocorrido um falecimento".

     Krisha Gotami sentindo-se extremamente contente partiu imediatamente para a cidade. Parou na primeira casa que encontrou e perguntou se lá tinha semente de mostarda? A resposta foi positiva, mas quando ela perguntou se alguém já tinha morrido naquela casa a resposta de que a mãe da pessoa que atendia tinha morrido recentemente à fez sair correndo a procura das sementes em outra casa.

    "Muita gente morreu nessa casa" uns falavam, "Houve inúmeras mortes na nossa família", em outra casa falaram. E assim foi em cada casa que Krisha Gotami batia, até que ela percorreu a cidade toda e percebeu que pedido do Buddha não poderia ser atendido.

     Com o filho falecido nos braços, levou-o à sepultura e disse adeus pela ultima vez. Então voltou para o Buddha. "Você trouxe os grãos de mostarda?", ele perguntou.

     "Não", disse ela. "Começo a entender a lição que está me ensinando. O sofrimento me cegou e eu imaginei ser a única pessoa que sofria nas mãos da morte."

    "Por que você voltou?", perguntou o Buddha.

    "Para lhe pedir que me ensine a verdade", respondeu, "sobre o que é a morte, o que pode haver por trás e além dela, e o que há em mim, se é que há algo, que não morrerá".

   O Buddha começou a ensinar-lhe: "Se quer saber a verdade da vida e da morte, precisa refletir continuamente sobre isto: Há somente uma lei que nunca muda o universo, é a de que todas as coisas mudam, todas as coisas são impermanentes. A morte do seu filho ajudou você a ver que o reino em que estamos é um oceano de insuportável sofrimento. Há um caminho, e apenas um cainho, para sair do ciclo incessante de nascimento e morte, que é o caminho da libertação. Uma vez que a dor agora a preparou para o aprendizado, e seu coração está se abrindo para a verdade, vou mostrar-lhe o caminho."

  Krisha Gotami ajoelhou-se aos pés do Buddha e o seguiu pelo resto de sua vida. Perto do fim, segundo se conta, ela alcançou a iluminação.



terça-feira, 14 de abril de 2015

Como Meditar Sobre a Compaixão


        


 "Evocar esse poder da compaixão em nós nem sempre é fácil. Para mim, as maneiras mais simples e melhores de chegar lá são as mais diretas. A cada dia a vida nos oferece inúmeras oportunidades de abrirmos o coração, se soubermos aproveita-las. 

         Uma mulher idosa passa a seu lado com semblante entristecido, veias inchadas nas pernas e duas sacolas plásticas cheias de compras que ela com dificuldade vai carregando; um velho de roupas surradas se arrasta à sua frente na imensa fila do correio; um menino de muletas, oprimido e ansioso, tenta atravessar a rua de tráfego pesado no final da tarde; um cão sangra até a morte na estrada; uma menina sozinha soluça histericamente no metrô. Ligue a televisão e no noticiário uma mulher, ajoelhada numa rua de Beirute, chora talvez a morte do filho assassinado; ou uma velha avozinha em Moscou toma sopa e olha a rua sem saber se amanhã vai ter o que comer; ou uma das crianças com AIDS da Romênia olha para você com seus olhos fundos e sem qualquer expressão de vida.

      Qualquer uma dessas cenas pode abrir os olhos do seu coração para o fato do vasto sofrimento do mundo. Deixe que isso aconteça. Não desperdice o amor e o pesar que nascem delas; no momento em que sente a compaixão emergindo de você, não a afaste para o lado, não se faça de indiferente nem tente voltar ao "normal"; não tenha medo dos seus sentimentos nem fique constrangido com eles, e não permita que a habitual distração se imponha ou o paralise na apatia.

        Seja vulnerável: use esse momento rápido e brilhante de compaixão; ponha-o no foco, vá fundo no seu coração e medite sobre ela, desenvolva-a, intensifique-a e aprofunde-a até onde puder.  Ao fazer isso perceberá quão cego tem sido diante do sofrimento, e o quanto a dor que tem experimentado ou visto é só uma minúscula fatia da dor que vai pelo mundo. Todos os seres, em toda parte, sofrem. Deixe que seu coração chegue até eles numa compaixão espontânea e incomensurável e dirija essa compaixão, com a benção de todos os Buddhas, para o alívio do sofrimento em toda parte.

         A compaixão é uma coisa muito maior e mais nobre do que sentir dó. Quando você sente dó, as raízes desse sentimento estão deitadas no medo e num sentimento de arrogância e condescendência, às vezes até um presunçoso "ainda bem que isso não é comigo". Como disse Stephen Levine: "Quando seu medo toca a dor de alguém, torna-se piedade; quando seu amor toca a dor de alguém,, torna-se compaixão." Treinar a compaixão, assim, é saber que todos os seres são iguais e sofrem de modo similar, é respeitar todos os que sofrem e saber que não se é nem separado sem superior a eles.

        Assim, sua primeira resposta ao ver alguém sofrendo não será de simples dó, mas de profunda compaixão. Você sente por essa pessoa respeito e até gratidão, pois sabe que aqueles que através do próprio sofrimento o estimulam a conhecer a compaixão estão de fato oferecendo-lhe o maior dos presentes, pois o ajudam a desenvolver a verdadeira virtude de que mais precisa no seu progresso rumo a iluminação.

        É por isso que dizemos no Tibete que o mendigo que lhe pede dinheiro ou a velhinha doente que lhe dá aperto no coração podem ser Buddhas disfarçados, manifestando-se no seu caminho para ajuda-lo a conquistar a compaixão e assim leva-lo ao estado Búdico."



Esse texto foi tirado do livro: "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer" de Sogyal Rimpoche.
 Editora Talento, Palas Athena. Paginas 256, 257.


terça-feira, 7 de abril de 2015

O Caminho Óctuplo ou O Caminho do Meio (part. 1)

       



 Certa ocasião, Buddha estava na Montanha dos Abutres junto à cidade de Rajagaha. Num bosque próximo, um monge de nome Sona estava entregue à meditação. Aplicava-se bastante, mas, não realizando a Iluminação e sentindo-se desnorteado, ao ver o Buddha e perguntou:

- Mestre, estou fazendo exercícios severíssimos. Dentre todos os discípulos, não há quem me iguale em zelo. Por que, então, não consigo realizar a Iluminação? Talvez seja melhor que eu volte para casa. Tenho bens que me permitem levar uma vida feliz. Não é melhor que eu abandone este caminho e volte ao mundo?

- Sona, antes de seres monge, eras um exímio harpista, não?

- Bem, eu tinha certa habilidade com esse instrumento.

- Então responda: quando as cordas da harpa estão muito tensas, obtém-se bom som?

- Não, mestre.

- Quando as cordas estão frouxas, obtém-se bom som?

- Também não, mestre.

- Então, como fazer para obter bom som?

- As cordas não devem estar nem tensas, nem frouxas demais.

- O mesmo se dá com a prática do Dharma, Sona. A aplicação demasiada traz inquietação à mente, e a despreocupação traz negligência. É necessário seguir o caminho do meio entre esses dois extremos.

  Desde então, Sona passou a exercitar-se segundo tais instruções, realizando, por fim, a iluminação.
 O Buddha, tendo experimentado esses dois extremos e reconhecendo a inutilidade deles, descobriu por experiência própria o Caminho do Meio que condensa o espirito da moral Budista, conhecido como Caminho Óctuplo, e consiste dos seguintes princípios:

       1. Palavra Correta
      2. Ação Correta                                                         
      3. Meio de Vida Correto
                                   (1.2.3.Conduta Ética: SILA) (Moralidade)
      4. Esforço Correto
      5. Atenção Correta                                                 
      6. Concentração Correta
                                   (4.5.6. Disciplina Mental: SAMADHI) (Meditação)
        7. Pensamento Correto                                          
      8. Compreensão Correta
                                    (7.8. Introspecção: PANNA) (Sabedoria)



As Quatro Nobres Verdades




As Quatro Nobres Verdades
      
         As quatro Nobres Verdades foram compreendidas pelo Buddha em sua iluminação. Para erradicar a ignorância, que é a fonte de todo o sofrimento, é necessário entender as Quatro Nobres Verdades, caminhar pelo Nobre Caminho Óctuplo e praticar as Seis Perfeições (Paramitas).
  
   As Quatro Nobres Verdades são:

         1. A Existência do Sofrimento
A vida está sujeita a todos os tipos de sofrimento, sendo os mais básicos o nascimento, envelhecimento, doença e morte. Ninguém está isento deles.

             2. A Existência da Causa do Sofrimento
A ignorância leva ao desejo e à ganancia, que, inevitavelmente, resultam em sofrimento. A ganancia produz renascimento, acompanhado de apego passional durante a vida, e é a ganancia por prazer, fama ou posses materiais que causam grande insatisfação com a vida.

               3. A Existência da Cessação do Sofrimento
A cessação do sofrimento vem da eliminação total da ignorância e do desapego à ganancia e aos desejos, alcançando um estado de suprema bem aventurança ou nirvana, onde todos os sofrimentos são extintos.

           4. A Caminho que leva à Cessação do Sofrimento

O caminho que leva à cessação do sofrimento é o Nobre Caminho óctuplo.