quinta-feira, 11 de junho de 2015

Amor Romântico e Amor Genuíno


Por Jetsuma Tezin Pelmo

   "O Problema é que nós sempre confundimos a ideia de amor com apego. Sabe, nós imaginamos que o apego e o agarramento que temos em nossas relações demostram que amamos, quando na verdade é só apego, que causa dor. Porque quanto mais nos agarramos, mais temos medo de perder. E então se nós, de fato, perdemos vamos sofrer.
  
   Bem, o apego diz: "eu te amo, por isso eu quero que você me faça feliz." E o amor genuíno diz: "Eu te amo, por isso quero que você seja feliz." "Se isso me incluir, ótimo!" "Se não incluir, eu só quero a sua felicidade." É portanto um sentimento bem diferente. Sabe, o apego é como segurar com bastante força. Mas o amor genuíno é como segurar com muita gentileza, nutrindo, mas deixando que as coisas fluam. Não é ficar preso com força. Quanto mais agarramos o outro com força, mais nós sofremos
   
    Porem é muito difícil as pessoas entenderem isso, porque elas pensam que quanto mais elas se agarram a alguém, mais isso demostra que elas se importam com o outro. Mas não é isso. Elas realmente estão apenas tentando prender algo porque elas têm medo de que se não for assim, elas que acabarão se ferindo. Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchido pelo outro será certamente muito complicado.

  Quero dizer que, idealmente, as pessoas deveriam se unir já se sentindo preenchidas por si mesmas e ficarem juntas apenas para apreciar isso no outro, em vez de esperar que o outro supra essa sensação de bem estar que elas não têm sozinhas. E isso gera muitos problemas. E isso junto com toda a projeção que vem do romance, em que projetamos nossas ideias, ideais, desejos e fantasias românticas sobre o outro, algo que ele nunca será capaz de corresponder. 

   Assim que começamos a conhecê-lo, reconhecemos que o outro não é o príncipe encantado ou a Cinderela. É uma pessoa comum, também lutando. E a menos que sejamos capazes de enxergá-las, de gostar delas, e de sentir desejo por elas e também ter bondade amorosa e compaixão, será um relacionamento muito difícil."



segunda-feira, 8 de junho de 2015

O Tratamento dos Pensamentos



    Os principiantes, sem saber com exatidão o que é meditação, criam uma expectativa de uma calma perfeita, totalmente livres de pensamentos. Temem sua vinda, e quando estes surgem desolam-se por sua incapacidade de meditar.

    Temer os pensamentos, irritar-se ou inquietar-se com seu aparecimento, crer que a falta de pensamentos é uma boa coisa em si, são erros que conduzem a um estado de frustração e culpa inúteis.

    A mente de um não-meditador, de um principiante e de um meditador confirmado é atravessada por pensamentos. Mas, a maneira de abordá-los varia de modo considerável de um para outro.

   Alguém que não pratica meditação é, em sua relação com os pensamentos, semelhante a um cego,  o rosto voltado para uma estrada longínqua. O cego é incapaz de ver se automóveis passam ou não na estrada. Da mesma forma, a pessoa comum, embora experimentando um sentimento de desconforto e mal-estar interiores, não está, em absoluto, consciente da torrente de pensamentos que, no entanto, ecoa sem interrupção.

   Ao começarmos a meditar, descobrimos os olhos para ver, mas gostaríamos que não passasse nenhum automóvel na estrada. Em um primeiro automóvel, nossa atenção decepciona-se. Um segundo, nova decepção. Um terceiro, irritamo-nos, etc.

  A esperança ingênua de uma estrada vazia é incessantemente enganada. Estamos ao mesmo tempo conscientes e infelizes com a sucessão de veículos. Cada automóvel que passa é uma nova dificuldade. Revoltamo-nos contra um estado de coisas inevitável.

  Quando encaramos a meditação como um espaço desprovido de pensamentos, cada pensamento que se apresenta contradiz com evidencia esse esquema preconcebido; estamos em situação de fracasso quase permanente.

  Quando, ao contrario, compreendemos bem em que consiste a meditação, vemos desfilar os automóveis, mas sem revolta nem recusa, sem ter decidido que a estrada deveria estar vazia.  Não esperamos a ausência de veículos, assim como não apavoramos com sua presença.

  Os automóveis passam e os deixamos passar; eles não são nem nocivos, nem benéficos. Se os pensamentos se elevam, deixamos que passem naturalmente, sem nos ligarmos a eles, nem os condenarmos; se eles não se elevam, não encontramos aí objeto de satisfação particular. Uma abordagem sã dos pensamentos condiciona uma boa meditação.

  As pessoas que compreendem mal a meditação creem que todos os pensamentos devem cessar. Não podemos, de fato, estabelecer-nos num estado sem pensamentos. O fruto da meditação não é a ausência de pensamentos, mas o fato de que os pensamentos cessam de ser nocivos para nós.

  De inimigos, os pensamentos tornam-se amigos. Uma meditação ruim vem em geral da negligencia das práticas preparatórias, mas também, estas tendo sido realizadas, da má compreensão da maneira de colocar a mente.

   As pessoas ordinárias tem a mente perpetuamente distraída, dispersa. Quando meditamos, por outro lado, o maior impedimento vem das produções mentais sobrecrescidas, dos comentários sobre si mesmo e das preconcepções. A meditação autentica evita tanto a distração como os acréscimos mentais.

Bokar Rimpoche.

-Do livro "Meditação, concelhos aos Principiantes", pag. 90, 91 e 92. Editora Shisil



domingo, 7 de junho de 2015

Os Três Potes



     Não devemos escutar os ensinamentos com o corpo presente e a mente vagando à procura de pensamentos. Ao escutar ou estudar um ensinamento você deve manter-se totalmente presente, parando até mesmo de rezar, contar mantras ou qualquer outra atividade, mesmo sendo supostamente uma atividade meritória.
    
     Quando estamos escutando um ensinamento ou estudando-o devemos lembrar que não estamos na escola fazendo um trabalho onde teremos uma boa nota por decorar as frases feitas sem assimilar o seu real conteúdo. Estamos recebendo ensinamentos que, se realmente compreendidos e usados, vão transformar a nossa vida. Com isso devemos dedicar toda a atenção ao momento evitando os três potes.

      O pote emborcado: Quando estiver ouvindo os ensinamentos, ouça o que está sendo dito e não se deixe distrair por mais nada. Senão, você será como um pote emborcado no qual está sendo despejado liquido. Embora fisicamente presente, você não escuta uma palavra do que está sendo ensinado.

      O pote furado: Se você apenas ouvir, mas não se lembrar de nada do que escutou ou entendeu, você será como um pote furado; seja qual for a quantidade de líquido colocada dentro dele, nada permanece. Mesmo que ouça ou leia muitos ensinamentos, você nunca consegue assimila-los ou colocá-los em prática.

     O pote envenenado: Se você ouve ou lê os ensinamentos com a motivação incorreta, com o desejo de se tornar ilustre ou famoso, ou com amente repleta de conceitos já pré-estabelecidos, todos os ensinamentos serão julgados e antes de serem colocados em prática e terão perdido sua essência.

   Depois de escutar um ensinamento de modo adequado, é importante reter o significado do que foi passado e colocá-lo em pratica continuamente. Como disse o Grande Sábio:

"Eu lhes mostrei os métodos que levam à libertação.  
  Mas vocês devem saber que a libertação depende de vocês."

     O professor dá as instruções ao discípulo, explica-lhe como escutar e aplicar, como abandonar as ações negativas e executar ações positivas e como praticar. Cabe ao discípulo lembrar-se dessas instruções, sem se esquecer de nada; pô-las em pratica e consumá-las. 




quinta-feira, 21 de maio de 2015

Sobre os Hábitos Mentais



      
     Colocando em termos muito simples, a maior parte da atividade cerebral parece decorrer de uma classe muito especial de células chamadas neurônios.  Os neurônios são células muito sociáveis: adoram fofocar. Em alguns aspectos, eles são como crianças desobedientes na escola passando bilhetinhos e cochichando entre si - com exceção de que as conversas secretas entre os neurônios tratam principalmente de sensações, movimentos, solução de problemas, criação de memorias e produção de pensamentos e emoções.

       Essas células fofoqueiras se parecem muito com arvores, composta de um tronco, conhecido como axônio, e galhos que se estendem para enviar e receber mensagens de, e para, outros galhos e outras células nervosas que passam pelos tecidos musculares e cutâneos, órgãos vitais e órgãos sensoriais.

       Eles passam suas mensagens uns aos outros através de pequenas lacunas entre os galhos mais próximos. Essas lacunas são chamadas de sinapses. As mensagens que fluem por essas lacunas são enviadas da forma de moléculas químicas chamadas neurotransmissores, que geram sinais elétricos que podem ser medidos por um eletroencefalograma.

       Hoje me dia, as pessoas estão bem familiarizadas com alguns desses neurotransmissores: por exemplo, a serotonina, que é influente na depressão; a dopamina, uma substancia química associada às sensações de prazer; e a epinefrina, mas comumente conhecida como adrenalina, uma substancia química muitas vezes produzida em resposta ao estresse, à ansiedade e ao medo, mas também crítica para a atenção e a vigilância.

      O termo científico para a transmissão de um sinal eletroquímico de um neurônio para o outro é potencial de ação - um termo que soou tão estranho quanto a palavra vacuidade pode soar a pessoas que nunca foram treinadas como budistas.

     Reconhecer as atividades dos neurônios não seria muito relevante em termos de sofrimento ou felicidade, exceto por alguns detalhes importantes. Quando os neurônios se conectam, formam um vinculo muito parecido com amizades antigas. Eles adquirem o hábito de passar os mesmos tipos de mensagens de um lado para o outro, como velhos amigos tendem a reforçar os julgamentos uns dos outros sobre pessoas, eventos e experiências.

    Esse vinculo é a base biológica de grande parte do que chamamos de hábitos mentais, uma espécie de reflexo automático - daqueles que temos quando um médico nos bate no joelho com um martelinho - em relação a determinados tipos de pessoas, lugares e coisas.

    Para usar um exemplo muito simples, se tivesse me assustado com um cachorro quando era muito pequeno, um conjunto de conexões neuronais teria se formado em meu cérebro correspondendo às sensações físicas de medo, por um lado, e o conceito cachorros são assustadores. E, a cada vez que eles conversarem entre si, a mensagem se tornaria mais alta e mais convincente, até se tornar uma rotina tão enraizada que tudo o que eu precisaria fazer seria pensar sobre cachorros e meu coração começaria a bater mais rápido e eu começaria a suar.

    Agora, suponha que um dia eu visite um amigo que tem um cachorro. Inicialmente, posso ficar aterrorizado ao ouvir o cão latir e ver o animal sair para me cheirar. Contudo, depois de algum tempo, o cachorro se acostumaria comigo e viria se sentar a meus pés ou no meu colo e talvez até começaria a me lamber - tão feliz e afetuoso que eu praticamente teria de empurra-lo para o lado.

      O que aconteceu no cérebro do cachorro é que um conjunto de conexões neuronais associadas com meu cheiro e todas as sensações que lhe dizem que seu dono gosta de mim cria um padrão que equivale a algo como: "Ei, essa pessoa é legal!" Enquanto isso, em meu cérebro, um novo conjunto de conexões neuronais associadas às sensações físicas agradáveis começa a conversar entre si e começo a pensar: "Ei, talvez os cachorros sejam legais!" A cada vez que eu visitar meu amigo, esse novo padrão é reforçado e o antigo é enfraquecido - até que, finalmente, não terei mais tanto medo de cachorros.

     Em termos neurocientíficos, essa capacidade de substituir conexões neuronais antigas por novas é chamada de plasticidade neuronal. O termo tibetano para essa capacidade é le-su-rung-wa, que pode ser traduzido como "flexibilidade". Você pode usar qualquer um dos termos e soar muito esperto. Em resumo, em um nível estritamente celular, a experiência repetida pode mudar a forma como o cérebro trabalha. Isso explica o funcionamento dos ensinamentos budistas, que lidam com a eliminação de hábitos mentais que nos conduzem à infelicidade.

Trecho do livro "A Alegria de Viver", Yongey Mingyur Rimpoche. Pags. 33 e 34. Editora ELSEVIER e CAMPUS.