quarta-feira, 6 de maio de 2015

O Caso Especial dos Pensamentos Desagradáveis



"Não importa qual pensamento ocorrer, não tente pará-lo."
-9°Gyalwang Karmapa

   "Especialmente se a meditação for uma prática nova para você, pode ser muito difícil observar os pensamentos relacionados a experiências desagradáveis, em particular aquelas relacionadas a emoções fortes, como ciúmes, raiva, medo ou inveja, com pura atenção.

   Esses pensamentos desagradáveis podem ser tão fortes e persistentes que é fácil prender-se a eles e ceder à tentação de segui-los. Não tenho dedos o suficiente para contar o número de pessoas que conheci que discutiram esse problema comigo, especialmente se os pensamentos que elas vivenciam se relacionam com brigas que tiveram com alguém em casa, no escritório ou em outro lugar e que elas não conseguem esquecer.

    Dia após dia, suas mentes retornam às ideias que elas relacionam ao que foi dito e feito e elas se veem presas pensando em como a outra pessoa foi horrível, no que elas poderiam ou deveriam ter dito ou feito na hora e o que elas gostariam de fazer para se vingar.

    A melhor forma de lidar com esse tipo de pensamento é distanciar-se e repousar sua mente no "Shine" ( Pratica de meditação também conhecida como "Calma Mental") sem objetivo por um minuto e então direcionar a atenção para cada pensamento e as ideias que revolvem em torno dele, observando-os diretamente por alguns minutos, da mesma maneira como você observaria a forma ou a cor de algo. Permita-se alternar entre repousar a sua mente na meditação sem objeto e conduzir sua atenção de volta aos mesmos pensamentos.

   Quando você trabalha com pensamentos negativos dessa forma, duas coisas ocorrem. (Não se preocupe: nenhuma delas envolve chifres crescendo!) Primeiro, à medida que você repousa na consciência, sua mente começa a se acalmar. Segundo, você descobrirá que sua atenção a pensamentos ou historias especificas vem e vai, da mesma forma que ocorre quando você está trabalhando com formas, sons e outros suportes sensoriais. E, à medida que esse pensamento ou historia é interrompido por outras questões- como estender as roupas lavadas, fazer compras ou preparar uma refeição-, as ideias desagradáveis gradualmente perdem força em sua mente.

   Você começa a perceber que elas não são sólidas ou poderosas como pareciam no começo. É como um sinal de ocupado ao telefone- irritante, talvez, mas nada com o qual você não consiga lidar.

   Quando você trabalha com pensamentos desagradáveis dessa forma, eles se tornam vantagens à estabilidade mental em vez de desvantagens- como adicionar peso na barra quando você está se exercitando em uma academia de ginastica. Você está desenvolvendo os músculos psicológicos para lidar com níveis maiores de estresse."


Trecho do livro "A Alegria de Viver" de Yongey Mingyur Rimpoche. Editora Elsevier, Campus. Pag. 170 e 171.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Uma Orientação para a Pratica da Meditação



A concentração

     Não concentre demais, prendendo-se as palavras e detalhes, pois cada vez que entender uma coisa, esquecerá a anterior e nunca compreenderá o todo.    
     Concentração demais traz sonolência, em vez disso, mantenha um equilíbrio entre estar tenso e relaxado.
     Uma vez, Ãnanda estava ensinando Srona a meditar. Snona estava com muita dificuldade em entender. Às vezes ele ficava muito tenso e às vezes muito relaxado. Srona foi falar sobre o assunto com o Buddha, que perguntou:

      - No passado você era um bom tocador de vina, não era?
      - Sim, eu tocava muito bem.
      - A sua vina tinha um som melhor quando as cordas estavam bem frouxas ou quando estavam bem esticadas?

      - Elas soavam melhor quando não estavam nem muito frouxas nem quando estavam muito esticadas.
    - O mesmo acontece com a sua mente, disse o Buddha, praticando com esse conselho Srona atingiu seu objetivo.

"Não deixe sua mente ficar muito tensa ou muito concentrada internamente. Deixe os sentidos naturalmente tranquilos, equilibrados entre a tensão e o relaxamento."

 Leia também o  "O Caso Especial dos Pensamentos Desagradáveis"

O Pai do Lua Formosa



      Havia um homem que encontrou um grande monte de cevada. Ele pôs tudo em um saco, amarrou-o à trave do telhado, deitou debaixo do saco e começou a imaginar.

     "Essa cevada vai me deixar muito rico", pensou. "assim que ficar rico, conseguirei uma linda esposa... e ela me dará um menino como filho... Que nome darei a ele?"

     Naquele exato momento a lua nasceu e ele decidiu dar o nome ao filho, que existia apenas em seu sonho, de Lua Formosa. Enquanto isso, um rato ia roendo a corda que prendia o saco que estava preso na trave do telhado.  De repente, a corda se partiu e o saco caiu sobre o homem e ele morreu.

   Ficar sonhando com o futuro pode trazer grandes sofrimentos. Ficar fantasiando coisas que irei fazer se outra coisa acontecer é apenas distração e nos tiram do aqui agora.

Ser vigilante dos nossos pensamentos, escutar com atenção e cuidado, avaliar e agir é a única coisa que temos que fazer.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sobre A Morte



    O encontro com a morte pode produzir um verdadeiro despertar, uma transformação em toda nossa relação com a vida.

   Durante a época do Buddha, havia uma mulher, Krisha Gotami, que perdeu seu primeiro filho. Totalmente entorpecida pela tristeza ela saiu aos prantos pelas ruas, abraçada a seu filho falecido, implorando para todos que encontrasse um remédio para ressuscita-lo.

  Depois de muito andar pela cidade, sem encontrar alguém que a ajudasse, um sábio lhe disse que a única pessoa no mundo que poderia socorrê-la era o Buddha.

   Assim ela foi até o Buddha, deitou o corpo da criança a seus pés, e contou-lhe sua história. O Buddha ouviu com infinita compaixão, então disse: "Há apenas um modo de curar sua aflição. Vá para a cidade e me traga sete sementes de mostarda. Mas estas sementes devem vir de uma casa onde nunca tenha ocorrido um falecimento".

     Krisha Gotami sentindo-se extremamente contente partiu imediatamente para a cidade. Parou na primeira casa que encontrou e perguntou se lá tinha semente de mostarda? A resposta foi positiva, mas quando ela perguntou se alguém já tinha morrido naquela casa a resposta de que a mãe da pessoa que atendia tinha morrido recentemente à fez sair correndo a procura das sementes em outra casa.

    "Muita gente morreu nessa casa" uns falavam, "Houve inúmeras mortes na nossa família", em outra casa falaram. E assim foi em cada casa que Krisha Gotami batia, até que ela percorreu a cidade toda e percebeu que pedido do Buddha não poderia ser atendido.

     Com o filho falecido nos braços, levou-o à sepultura e disse adeus pela ultima vez. Então voltou para o Buddha. "Você trouxe os grãos de mostarda?", ele perguntou.

     "Não", disse ela. "Começo a entender a lição que está me ensinando. O sofrimento me cegou e eu imaginei ser a única pessoa que sofria nas mãos da morte."

    "Por que você voltou?", perguntou o Buddha.

    "Para lhe pedir que me ensine a verdade", respondeu, "sobre o que é a morte, o que pode haver por trás e além dela, e o que há em mim, se é que há algo, que não morrerá".

   O Buddha começou a ensinar-lhe: "Se quer saber a verdade da vida e da morte, precisa refletir continuamente sobre isto: Há somente uma lei que nunca muda o universo, é a de que todas as coisas mudam, todas as coisas são impermanentes. A morte do seu filho ajudou você a ver que o reino em que estamos é um oceano de insuportável sofrimento. Há um caminho, e apenas um cainho, para sair do ciclo incessante de nascimento e morte, que é o caminho da libertação. Uma vez que a dor agora a preparou para o aprendizado, e seu coração está se abrindo para a verdade, vou mostrar-lhe o caminho."

  Krisha Gotami ajoelhou-se aos pés do Buddha e o seguiu pelo resto de sua vida. Perto do fim, segundo se conta, ela alcançou a iluminação.